Uma Pessoa – Dois Eus

As lágrimas correram pelas minhas faces. Soltei um soluço. Depois outro. E ainda outro. Apoiei as mãos na bacia e inclinei a cabeça para a frente.
Porque teria eu de ser assim? Porque não podia ser como toda a gente? Porque não podia ser… normal?
Céus, aquelas vozes… Aquelas imagens…
De onde vinham? Para onde iriam? Para que serviam? Serviriam elas para alguma coisa, sequer?
Levantei o queixo e fitei-me. Maquilhagem borrava-me as bochechas, ranho escorria do meu nariz, baba pingava da minha boca.
O meu reflexo ergueu a espinha e fitou-me. Uma raiva avermelhada e assustadora brilhava-lhe nos olhos escuros.
– Para que queres tu ser como todos os outros? – Perguntou-me ela. – Porque anseias ser sem graça, sem vida, sem imaginação, sem sonhos? Diz-me e ir-me-ei embora para sempre.
Funguei de novo e fechei os olhos com força. Quando os abri, apenas o meu reflexo cheio de germes pintava o espelho.
O medo fez-me endireitar o tronco e cessar as lágrimas. Olhei para trás, para debaixo da bacia, para dentro da sanita, da banheira, do copo dos dentes. Ela não podia ter-se ido; eu precisava dela! O que faria sem aquela parte de mim?
– Não vás – sussurrei. Silêncio. Gritei. – Não vás! Eu não quero ser como os outros!
Mais calmaria. Nada de anormal. Apenas…
A porta ouviu-se. Assustei-me de morte.
Limpei as lágrimas e a maquilhagem com brusquidão.
– Quem é? – Perguntei rouca do choro.
– Quem raios havia de ser?
A porta escancarou-se e lá estava ela: a parte de mim que me fazia sonhar, imaginar, viver e ser completamente louca.
Controlei um suspiro de alívio.
Ela apontou para o lavatório.
– Limpa mas é o focinho – ordenou-me. – Temos trabalho para fazer.
Ergui um sobrolho. Do que estava ela a falar?
Irritada, ela suspirou e cruzou os braços no peito.
– Vou mostrar-te o que fazeres com as imagens e com as vozes que te dou.
Surpreendida, pisquei os olhos.
– Vais? – Gaguejei.
– Vou – determinou ela.
– Como?! – Perguntei, curiosa e assustada ao mesmo tempo.
Ela sorriu. Não de uma forma bonita ou simpática; foi mais maquiavélica.
Os meus nervos aumentaram.
– Vais começar a escrever as tuas histórias.
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